sexta-feira, 28 de setembro de 2012

The Skeletal Garden, trecho.

-Sopor Aeternus & The Ensemble Shadows.


"Ele tinha um jardim selvagem atrás de sua casa...
Tão bonito e escuro...
Esquilos e pica-paus viveram lá.
Camundongos, castores e outros animais.
Árvores de avelã e morangos silvestres cresceram.
Cerejas, maçãs e peras, cresceram nesse local privado.

 Na seguração das sombras, a frágil samambaia dormia.
Pelos caminhos sinuosos, flores silvestres [...]
 pequenas cabeças que não sei o nome...

E evidente houve hera por todos os lados
.
 Aconteceu na mesma semana que o levaram embora,
Pessoas levaram abaixo todas as árvores de seu jardim.
Contratadas pela inveja das pessoas lá fora,
Que temiam a beleza e o encanto desse lugar
E as trevas que haviam para respirar.
No entanto, não podiam impedir as aves mortas de cantar..."

Esse é meu trecho favorito de todas as músicas do Sopor Aeternus. Fantástico demais, Anna nos transporta  realmente entre suas sombras e surpreendentemente pra mim elas não são assustadoras e sim tristes e carregadas de uma beleza melancólica que nunca encontrei em nenhum outro artista.
Anna conseguiu REALMENTE transcender qualquer limite imposto por quaisquer contexto social, sem contar suas particularidades e a maravilha que essa criatura alcançou sem intenção, através de uma exploração, destruição e reconstrução de sua própria estética.
Apaixonante!!!
Anna Varney transpõem não só os limites musicais, sociais ou valores já pre concebidos. Transpõem também o limite de "ser humano"... Com certeza, ela é o meio perfeito para que The Shadows se materializem.

domingo, 23 de setembro de 2012

O Pulcinella: Marionete das engrenagens.

Um dos meus últimos trabalhos pra fora. Um alívio termina-lo depois de tantas pedras no caminho e uma felicidade e realização imensas pelo feedback que ele me deu :) Homônimo ao poema.

O Pulcinella: Marionete das engrenagens.

Por: Mariane Dorateotto.

Já não respira, já não sente, já não vive.
O sol envelhece e a água enferruja.
Fios e parafusos o inspiram e ele deixa que o aço o engula.
Monstros de chips e lata.
Já não existe coração
Foi forjado numa fábrica, mastigado, limitado e vomitado.
Sem pensamentos, olhos de vidro vagam vazios.
O homem deixa de existir, deixa o sonho e o ter pra trás pra ser... 
Tecnologia.


Nota final: Pulcinella (no Brasil “Polichinelo”) é um personagem da Commedia Dell’arte que representa os contrários, no caso do pequeno poema sendo estes o calor do afeto humano e a frieza das máquinas. 


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Update.-Arte.

Como disse em meu primeiro post, desenho há algum tempo. Resolvo então aqui trazer uma pequena coletânea dos meus trabalhos e "brincadeiras" através do tempo, alguns infelizmente já não lembro se quer de que ano são :)~
"Always will be"-Não me lembro o ano, minha primeira tela.

"I Kill Marilyn Monroe"- Um desenho conceitual sobre não seguir os padrões sejam eles  estéticos ou de gênero.
"Rainbow Butterfly"-Um pequeno segredo: eu MORRO de medo de borboletas e mariposas e talvez desse medo absurdo tenha nascido o próprio fascínio pela beleza e mistério dessas criaturas.

Uma Pin-up Freak feita no corew. Porque as  Inked tem todo o seu charme!
E com essa teve início minha quase que obsessão  pela figura da  Misteriosa artista Burlesca. Além  de  donas dos mistérios da sensualidade, quais mistérios mais elas escondem por trás da doçura?

Feito na noite da virada de 2009 pra 2010. Hoje podemos considera-lo péssimo com louvor!
A figura da Gótica continuou na minha mente por um bom tempo. Creio eu que pela facilidade que a figura obscura dê pra se moldar a expressividade numa "obra", algo que eu conscientemente não sabia na época.
Trabalho feito à caneta, pra uma banda. Infelizmente o álbum nunca chegou a ser se quer produzido e o desenho finalizado.

Um "tentativa" de desenhar o Tim Burton, movimentando mais uma vez o Mercado  Cinematográfico com sua versão (que eu por sinal amo!) de Alice no País das Maravilhas.
Meu segundo desenho na mesa digitalizadora que para um comecinho não creio ter ficado tão ruim assim. Uma elfa.
Conceito inspirado em "An Artist's life manifesto" da genial Marina Abramovic.
Esse desenho tem como ideia lembrar que toda autodestruição tem início em um grande sofrimento. Por trás dos sorrisos imperfeitos e erotizados em demasia ou meramente banais sempre se esconde a frieza de um passado. (E como não lembrar aqui, da eterna Marilyn Monroe?)
Talvez não tenha ficado tão belo mas demonstra que as vezes a saudade que bate é de encontrar por meio da própria solidão, com a gente mesmo que as vezes fica feliz só por caminhar sozinho na chuva, cercado pelo concreto apreciando o cinza sujo que nos engole. 
Da Terra eu vim e pra Terra eu voltarei. Quando a hora chegar, quero me desfazer, entregue à Natureza  que é Senhora da Vida e da Morte e voltar pro útero do Universo, deixar que meu corpo volte a ter a beleza do nu ingênuo, despretensioso e sem maldade do que é natural e ali voltar a ser semente. E que meus restos físicos alimentem uma vez mais, a ser lançado sob milhões de formas o Ciclo da Vida.
Assim como eu volto pra Terra, eu Sou também Água, Fogo e Ar. Eu sou Natural e faço parte do que é Natural.
Esses três últimos desenhos foram inspirados pela primeira ideia  filosófica da qual tive conhecimento.que baseava muitos conceitos nos chamados 4 elementos e também é de certa forma uma homenagem àquilo que eu amo e respeito, a Natureza.
Inspirado por "la liberté guidant le peuple" de Delacroix.
Nós temos liberdade mas ela está acorrentada à uma censura indireta. A ponografia  jorra de forma explícita  na mídia mas não se pode falar de política. O Estado é laico mas as leis ainda vigoram de acordo com a religião.
Somos privados de EDUCAÇÃO e MANIPULADOS, pra que a IGNORÂNCIA seja nossa sútil censura. A própria liberdade é a arma psicológica usada pra nos tirar a liberdade.
Finalmente fotografei algumas das minhas telas, que eram péssimas! Realmente, hahahaha.
Minha primeira tela em exposição. Representando em resumo, a princesa oprimida, cega e muda, à quem eram impostas ideias e que pra se tornar Senhora e Rainha do seu próprio reino precisa se rasgar totalmente por dentro, retirar a força às custuras que emudecem sua voz e renascer livre como os pássaros, sorrindo pro novo amanhecer.

"Eu prefiro correr
Com faróis no lugar dos olhos
Para não ver onde estou indo
Com girassóis no lugar na cabeça
Pra não lembrar de onde estou vindo"

domingo, 16 de setembro de 2012

L'ange du bosquet.

Autoria de Mariane Dorateotto.


“Era uma noite adocicada e a névoa se misturava à fumaça daquele estranho local que se aprofundava abaixo do nível da Terra. Desço vagarosamente degrau por degrau quando me deparo com aquela figura ali parada, de pele pálida e lábios vivos que tragavam tranquilamente um cigarro.
Vou até no bar, escolho um bom vinho, apenas uma taça. Observo ao redor, as pessoas riem e aqueles movimentos descoordenados faz com que pareçam representar a um só sentimento em uníssono. O chão é preto, e o teto e as paredes. A escuridão se adorna com veludo vermelho, castiçais dourados se emaranham em ramos pelas paredes assim como rosas que pontuam a decoração.
Recostado abaixo de um desses castiçais, o vejo pela segunda vez na noite. Ele, que me encara de maneira tão calorosa que aqueceria até mesmo a fria morte. Minhas pernas bambas. Arrumo o vestido abaixo do espartilho, tento esconder as mãos trêmulas. Ele ajeita uma mecha do cabelo que em sua claridade quase se confunde ao rosto magro e pálido e sorri, seduz. Eu sei o que ele quer. Eu tenho o que ele quer.
Dou um último gole na minha taça, acaricio sua borda, me levanto. As costas nuas, um leve movimento e um sutil convite para que ele venha comigo. Subo para o segundo andar, ele me segue.
O segundo andar deveria ficar pouco acima do nível da terra lá fora, é o que da pra se dizer pelos meus cálculos e a única fumaça vem da névoa que invade o espaço através das janelas barrocas adornadas com o mais belo do rococó, por onde entra também a luz azulada do luar, única iluminação presente no local.
Os detalhes e pensamentos me extasiavam tanto que quase não percebi quando a mão dele tocou meu braço, descendo com as pontas dos dedos até unir sua mão na minha. Trocamos algumas palavras,os olhos são ainda mais belos assim de perto. A íris negra e tão viva contrasta tão bem com os ossos bem marcados. O cabelo claro lhe cai minuciosamente arrumado pelos ombros dando aquela criatura um ar místico. Sorrisos.
Puxa-me pela cintura. Ah! Deus, esse perfume. Cola seus lábios nos meus. Ele sabe o que quer, desmorono. A mão firme desce até minha coxa. Decidido como as gárgulas que protegem sua morada Já não ouço a música, já não presto atenção, esqueço quem sou. Oh, quão doce a carne amarga pode vir a ser. Venha comigo, querido, vamos sair daqui antes que isso se torne incontrolável.
Ele vem atrás de mim sem largar minha mão se quer por um segundo. Estamos indo rápido. Um beco escuro, um lugar abandonado, qualquer coisa serve... Mesmo um canto afastado no bosque que nos cerca. O Bosque...
As árvores se tornam mais próximas e cheias. Diminuímos o ritmo, ele me abraça forte, não sinto medo algum da solidão que nos envolve, jovens e belos. Brincamos, sorrimos e bailamos entre as árvores, celebremos a vida! Ele me abraça contra uma árvore, me beija, me aperta e se entrega a mim. Arranho suas costas por baixo da camisa, tiro o espartilho enquanto ele abre meu vestido, seu sobre tudo vai ao chão. Ele baixa a alça esquerda do meu vestido e contempla.
Meu seio branco que reflete o azul da lua.
O peito aberto, o coração estático, exposto. Minha pele ganha um tom cada vez mais antigo, minha carne apodrecida cola aos ossos. Atrofio por inteira. Meus olhos se retraem para as órbitas. Oh Deus, os olhos não... Por favor, deixe-me ter ao menos esse traço de humanidade! Ao fim, estou novamente em minha degradante e arcaica forma original, tão repugnante que me escondo ao máximo por trás das sombras e dos cabelos velhos e brancos que me vão até os pés.
O rapaz olha o terrível espetáculo em choque demais pra fugir.
Não quero machuca-lo assim meu amor!
“Eu sou a tua morte
E lhe quero bem
Esqueça o mundo”
Sussurro-lhe ao ouvido. E com as órbitas vazias expelindo desconsoladamente aquela substância escura (E acredite, eu realmente gostaria de ter ficado com os olhos e poder chorar como os belos anjos humanos) e um verme corroendo-me o coração, beijo a boca sensual e retiro aquilo de vida que o espanto ainda não levara. Aperto seu doce corpo inerte contra o meu, não quero deixar tão bela escultura voltar ao pó. Não quero.

Nota adicional: Aquele corpo continha uma alma de pássaro, que se foi voando assim logo que retirei sua vida, separando matéria e substância. Alma tão bela e atraente quanto o corpo ao qual terror e despreparo para a minha visão cara a cara, encolheu a torna-la quase invisível a olho nu.”

Torno a dobrar aquelas folhas sépia e guardo no buraco em meu peito. Esse encontro ocorreu há muitos e muitos anos e nunca mais tornei a ver invólucro tão bem esculpido no mármore da carne, nem encontrei aquela alma doce e tão singular em qualquer canto de nenhum dos continentes ou mares da Terra. Mas eu a Morte, nunca esquecerei aquele breve encontro e o verme que começou a corroer-me aquela noite, inda suga a energia dos meus ossos sobrenaturais.
Noite após noite, a Morte também ama.

sábado, 15 de setembro de 2012

Ao futuro.

Pretendia procurar hoje uma música mas o dia passou e nenhum sentimento veio, deixo então a projeção do futuro pelos olhos de novamente, Augusto dos Anjos.
E quem diria, já naquela época alguém notava a decadência na qual o Homem entrava.
E quem diria, chegariam tempos em que aquelas palavras acordariam gritando verdade.



Idealização da Humanidade Futura
-Augusto Dos Anjos.

Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
-Homens que a herança de ímpetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!-

Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!

Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação

quinta-feira, 13 de setembro de 2012


Trago hoje, uma das minhas poesias favoritas, com um terceto final que me soa particularmente inesquecível em genialidade, do célebre (ou maldito, ai deixo à gosto do leitor) autor de “Versos  Íntimos":


O Morcego

-Augusto Dos Anjos. 

Meia-noite! Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede...”
-Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A toca-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O Demônio Impessoal.

Eu preciso exteriorizar essa visão que tem me atormentado as noites, já não tenho paz por se quer um segundo por conta dessa imagem que se fixou na mente com as coisas que os ventos me sopraram aos ouvidos, rasgando-me o espírito e erguendo de sua tumba maldita

O Demônio Impessoal


Adormecido estava. Até que aquela noite
Estava a sussurar-lhe ao ouvido, entre as pessoas
E minha mente o invoca, a carne sente o toque rançoso
Em mim, a voz daquele demônio ressoa.

Semanas e inda agora, em magistral desespero
Lanço aos Ventos
Choro, estraçalho, me calo
Escondo e sorrio, cresce a semente dos meus lamentos.

A carne branca hoje se torna disforme
Mas, depois de levarem-me a dignidade
Que há de convencer-m que o valor
Do homem é maior que de um porco à se expor?

Ali mostram-se as entranhas. Aqui, a memória latente
“Porque Deus? Porque que eu? A pensar por toda gente
E carregar a triste sina
De tantas mulheres e meninas”

Ninguém sabe o que houve, nem há de convir saber
Resta ao expectador emudecido contemplar
As cicatrizes, feridas e o vazio suspiro
Até que se desfaça a memória desse imundo ser maldito.