quinta-feira, 13 de setembro de 2012


Trago hoje, uma das minhas poesias favoritas, com um terceto final que me soa particularmente inesquecível em genialidade, do célebre (ou maldito, ai deixo à gosto do leitor) autor de “Versos  Íntimos":


O Morcego

-Augusto Dos Anjos. 

Meia-noite! Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede...”
-Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A toca-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

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